Calgary, 19 de outubro de 2009. Meu nome é Josh e hoje faz dois anos que estou trancado nesse hospital. As pessoas geralmente não enxergam o que está bem diante de seus olhos. Eu enxerguei e tentei avisar o que estava acontecendo, mas ninguém acreditou. Simplesmente me julgaram e me condenaram. Sou tratado como louco e sei que não sou. Lembro-me muito bem o que aconteceu comigo.
Era uma noite de lua cheia. Eu e meus amigos resolvemos acampar. Calgary era considerada uma cidade pacata. Não havia muitos crimes, apenas algumas lendas para amedrontar os turistas. Uma delas, é que na floresta morava uma criatura que, nas noites de lua cheia, corria pela mata em busca de carne humana para se alimentar.
Essas estórias começaram a surgir quando um casal de namorados desapareceu misteriosamente ao fazer trilha pela floresta. Nunca mais foram encontrados. Um mês depois, um grupo de jovens que acampavam próximo ao lago Green Vall sumiu sem deixar rastros.
Com a onda de desaparecimentos, a cidade pacata tornou-se assustadora. Os turistas já não nos visitavam mais e os próprios moradores tinham medo de sair de suas casas à noite.
Foi na tentativa de salvar o turismo da cidade, que decidimos acampar. Apenas para mostrar para esses supersticiosos que essas lendas não eram nada mais do que simples estórias de terror. Participaram do acampamento Jack, Karen, Lucy e eu. Confesso que no começo estávamos com um pouco de medo. Não que acreditássemos nas lendas da cidade, mas sim porque a floresta de noite era realmente assustadora. Não se ouvia nada, apenas o crepitar da fogueira que havíamos feito para nos aquecer do frio.
- Que tal se contasse umas estórias de terror Josh? – perguntou Jack animado.
- Nem pensar! – opôs-se Karen. – Tudo isso aqui já está sendo muito difícil pra mim.
- Aff... Como você é chata. Vou dar uma mijada. Volto logo!
- Espere Jack! Você vai sair nesse escuro sozinho? – perguntou Lucy assustada.
- E o que você quer? Que eu mostre meu pau pra todas vocês? Sessão de sexo só mais tarde.
- Grosso! – xingou Karen indignada, mas Jack já estava distante e provavelmente não tinha escutado.
Já havia passado quase quinze minutos e Jack ainda não tinha voltado.
- Vocês não acham que ele está demorando de mais? – perguntou Karen nervosa.
- Sim! – falei também preocupado. – Acho melhor procurar por ele. Vocês duas fiquem aqui ok?
- Nem pensar Josh! – disse Lucy agarrando-se em meu braço. – Você fica aqui. Jack só está fazendo uma brincadeirinha de mau gosto. Ele quer assustar a todos nós, típico dele.
De repente, ouviu-se um grito assustador que vinha do meio da floresta.
- Háaaaaaaa!
- O que foi isso? – perguntou Karen, tremendo de tanto medo.
- É... É a voz de Jack! – disse Lucy agarrada em minha cintura.
- Eu acho que ele não está brincando. – falei assustado.
Ficamos nos olhando por um bom tempo, quando novamente ouvimos os gritos de Jack.
- Nãããoooo!
- Josh! Estou ficando com medo.
- Calma Lu! Vou procurar por ele. Vocês duas, nãos saiam daqui!
Saí à procura de Jack, apesar da resistência das meninas. Os gritos já haviam cessado. Estava com muito medo. Seria possível todas as estórias serem verdadeiras? Existiria mesmo uma criatura na floresta?
Não demorei muito e logo ouvi novos gritos. Eram de Karen. Corri depressa de volta, a procura das meninas. Chegando lá, vi uma cena horrível.
- Hó meu Deus! – gritei desesperado.
Karen e Lucy estavam dependuradas numa árvore, os galhos enroscados em seus pescoços. Elas estavam com dois buracos no rosto, onde deveriam estar seus olhos. Estavam mortas! Minhas melhores amigas haviam morrido.
Ouvi um rastejar entre as árvores. Olhei para frente e vi uma criatura que me chocou. Tinha os olhos vermelhos como fogo, exalava um mau cheiro que embrulhava o estômago e era grande e negra. Não era desse mundo.
- Não se aproxime de mim! – gritei – O que você fez com Jack?
A “coisa”, que se aproximava cada vez mais de mim, fez um barulho ensurdecedor e por um momento, cheguei a pensar que ela estava soltando uma gargalhada.
Comecei a correr sem direção alguma. Podia sentir aqueles olhos atrás de mim. Sabia que ia morrer. Consegui chegar à beira da estrada. Vinha passando uma caminhonete e então, dei sinal pedindo socorro.
- O que aconteceu rapaz? – perguntou-me o motorista descendo do carro e tentando me acalmar.
- Estão mortos! Todos eles!
- Quem morreu? – perguntou-me ele, mas era tarde demais. A criatura apareceu por trás dele e com suas mãos como se fossem garras, arrancou o coração do homem.
Aos berros, entrei na caminhonete e acelerei passando por cima do monstro, que deu um grito horrendo. Dei a marcha ré e passei por cima dele novamente. Uma, duas, três vezes. Fiquei parado, observando a “coisa” aos poucos tomar a forma humana. Desci cautelosamente e percebi que o monstro, na verdade era Jack.
Consegui escapar, mas ninguém acreditou em mim. A policia acha que eu matei meus amigos e que, na verdade, sou o assassino de todas aquelas pessoas desaparecidas. O corpo de Jack desapareceu e nunca foi encontrado. Fui trancado nesse lugar de loucos como se fosse um deles.
Meses depois, o diretor do sanatório, me trouxe um presente. Era uma caixinha preta e vinha amarrada com um laço vermelho, acompanhada de um bilhete.
- Deve ser sua família mandando noticias. – disse-me ele retirando-se do quarto.
Li o bilhete ansioso. Estava escrito apenas um versículo da bíblia:
“Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti, pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno.”
Mateus 5.29
Letamente abri a caixa e assustei-me com o que tinha dentro. Eram dois pares de olhos. Tentei gritar, mas duas mãos grandes e negras tampavam minha boca. Não conseguia respirar. Virei para trás estupefato.
Jack segurava uma faca e seus olhos vermelhos transpassavam ódio. Ele me encarava como um louco e sorrindo falou:
- Seus olhos agora são meus!
Gritei o mais alto que pude, mas quando os enfermeiros chegaram ao quarto ele já havia desaparecido, restando apenas o presente. Os olhos de Karen e Lucy me observavam.
Emanuell Andrade -
Conto!!!