quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Desde pequeno, sempre ouvi meus pais me dizer que homem que é homem não chora. Nunca entendi realmente o porquê disso. Afinal, nós homens somos tão diferentes assim das mulheres? Não somos seres com sentimentos iguais aos delas? A questão é que de tanto escutar esse ditado, coloquei em minha mente que jamais poderia chorar. Acabei me tornando uma pessoa amargurada com uma mente cheia de pensamentos obscuros.
Quando minha mãe morreu, fiquei olhando todas aquelas pessoas chorando desesperadas. Papai ao lado do caixão dela, sem derramar uma lágrima sequer. Eles haviam brigado muito nesses últimos tempos e a doença de mamãe influenciou muito para que as brigas diminuíssem. Meses depois, ele estava casado novamente, com a mulher que esteve sempre no meio da confusão deles. Mamãe já sabia que meu pai tinha uma amante e foi nessa época que começou a adoecer. Sua nova esposa não brigava muito com ele, tinha medo de apanhar. Sempre apanhava. Essas relações frustradas só me levavam a crer que casamento era apenas uma grande dor de cabeça. Nesse período decidi nunca me casar, afinal, para que casar e viver infeliz pelo resto da vida? Casamento não é algo muito sério?
Comecei a fumar desde cedo. Segui o exemplo de meus avôs, com quem morei um ano. Fumava até três maços de cigarros por dia. Sabia que ia acabar morrendo de câncer, mas você sabe como é. Quem fuma nunca liga para esses detalhes. Certo dia, resolvi viajar. Na verdade era apenas um pretexto para fugir da cidade medíocre em que morava. Foi nessa viagem que conheci a mulher que mudou minha vida.
Simone era diferente de todas as garotas que já havia conhecido. Tinha o poder de conquistar qualquer homem. Sempre me perdia em seu olhar. Acabei me apaixonando e foi aí que quebrei uma de minhas promessas, a de não me casar. Com ela tive três filhos. Mateus, Gustavo e Alice.
O que uma mulher é capaz de fazer a um homem? A resposta é simples, ela pode acabar com a vida dele. Simone, a quem eu dei todo meu amor e fidelidade, me traiu com Rodrigo, meu irmão. Sofri tanto. Perdi duas pessoas que amava muito de uma só vez. Confesso que passei seis meses na completa amargura. Queria muito poder chorar para ver se diminuía toda aquela dor que estava sentindo. Mas me lembrava novamente de papai me dizendo: "Deixe de ser chorão Marcelo! Homens não choram. Isso é coisa de mulherzinha!"
Sofri calado, engolindo todas as lágrimas que insistiam em querer sair de meus olhos, simplesmente pelo fato do preconceito machista que a sociedade nos impõe todos os dias, de que homem pra ser homem não podia chorar. Comecei a viver apenas para meus filhos, as únicas coisas que me restaram. Trabalhei muito para dar sempre o melhor para eles. Tive uma recompensa que não esperava, nem desejava. Gustavo morreu de overdose numa festa em que os jovens chamam de have. Maldita heroína! Mateus acabou na cadeia por roubar uma bolsa de uma velhinha na rua. Alice, a única ajuizada da família, se casou e foi embora com o marido para o Canadá, me deixando sozinho.
Hoje moro num pequeno quarto de pensão. Solitário e sem vontade de viver. Olho para as estrelas e não vejo mais sua luz. Ando pelas estradas à noite e não sinto o vento frio em minha pele. Tento chorar, mas não consigo. Odeio meus pais e minha vida.
E assim, fui à farmácia comprar veneno para matar os ratos que teimam em me deixar acordado a noite, fazendo aquele barulho irritante em minha mente. Se você estiver lendo essa carta, é sinal que o veneno funcionou. Meus pensamentos me deixaram em paz. Os ratos estão mortos!
Emanuell Andrade!!!
Crônica!!!

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